Lewis Hamilton havia previsto no sábado, depois de estabelecer a pole position do GP da Bélgica: “A Ferrari é a favorita amanhã”. Pois neste domingo, sem a chuva decisiva da sessão de classificação em favor do piloto da Mercedes, mascarando a real ordem de forças atual da F1, Sebastian Vettel, da Ferrari, não teve a menor dificuldade para vencer a corrida no circuito de Spa-Francorchamps.

Ultrapassou Hamilton logo depois da largada para dominar as 44 voltas da corrida. O inglês recebeu a bandeirada em segundo, 11 segundos depois, com o ídolo local, Max Verstappen, da RBR, em bom terceiro, distante 31s372 de Vettel, quase outra categoria.

Mas a mensagem deixada pela equipe italiana se estende para bem além da vitória na prova de retomada da temporada: a nova versão da unidade motriz Ferrari, a versão 3, usada pela primeira vez por Vettel, é ainda mais eficiente da versão 3 da Mercedes também instalada no carro de Hamilton. O time alemão jogava uma cartada potencialmente decisiva no fim de semana na 13ª etapa do campeonato.

A Ferrari lançou no GP do Canadá, sétimo do calendário, dia 10 de junho, a versão 2 da sua unidade motriz. E assustou o concorrente, tal a diferença de potência desenvolvida em relação a versão 1 da Mercedes. Na prova seguinte, na França, Hamilton e seu companheiro, Valtteri Bottas, também receberam a versão 2 da unidade motriz Mercedes. Mas a vantagem da Ferrari seguiu sendo grande, como a vitória de Vettel, na veloz pista de Silverstone, décima do ano, mostrou.

Vettel só não foi primeiro nos GPs seguintes, Alemanha e Hungria, por razões circunstanciais. Errou quando era líder em Hockenheim e, na Hungria, perdeu a pole para Hamilton sob chuva, em um traçado onde largar na frente conta muito. Mas neste domingo o tempo permaneceu firme, seco, Vettel não errou e, assim, não teve adversários. Pior para Hamilton: seu concorrente na luta pelo título correu dispondo de uma reserva de velocidade. Se necessário, Vettel poderia ter sido ainda mais rápido.

É conclusivo: a versão 3 da unidade motriz da Mercedes está abaixo da versão 3 lançada pela Ferrari neste mesmo fim de semana. Ao menos pelo observado no circuito de Spa-Francorchamps, a diferença segue sendo grande, podendo até mesmo ter crescido. A próxima etapa do Mundial, já domingo, na casa da Ferrari, em Monza, essa importante vantagem da Ferrari poderá ficar mais clara, pois no traçado italiano de 5.793 metros é onde os pilotos mais mantêm o acelerador no curso máximo.

Restam oito GPs para o encerramento do campeonato. A F1 sai da Bélgica com a nítida sensação de haver um favorito para celebrar o título: Vettel e a Ferrari. Mas, como lembrou Hamilton, ele e a Mercedes já vêm revertendo essa tendência há algumas corridas. Portanto, Vettel apenas dispõe de uma possibilidade maior de ser campeão.

O GloboEsporte.com perguntou ao piloto inglês neste domingo como via a superioridade evidenciada pelo modelo SF71H da Ferrari em relação ao W09 da Mercedes, em especial no tocante à disponibilidade de potência, fundamento tão essencial nessa era de tecnologia híbrida na F1. Se tinha a ver com as características dos 7.004 metros de Spa e se, em outras pistas, a Mercedes vai equilibrar a disputa.

– Acredito que eles terão essa vantagem onde houver retas maiores. Na próxima etapa, com as longas retas, deveremos sofrer para tentar vencê-los. Nós demos tudo o que tínhamos hoje. Nós éramos, geralmente, mais rápidos no segundo setor (do fim da grande reta até antes da velocíssima curva Blachimont, a parte mais sinuosa de Spa, sem retas extensas) na classificação, mas hoje nem mesmo lá eu conseguia acompanhar Sebastian. Abrir um segundo como fez é algo sério. Só nos resta seguir trabalhando duro.

Sentado do lado de Hamilton na coletiva da FIA, depois da cerimônia do pódio, Vettel gostou muito de ouvir Hamilton, apesar de claramente procurar reduzir a verdade.

– Espero, de fato, dispor de mais potência. Trabalhamos para isso. Se temos, então parabéns aos nossos engenheiros. Estamos evoluindo, em especial nos últimos dois anos, portanto essa é uma boa notícia. Eu não discordo da ideia de este ano nós estarmos bem mais próximos (da Mercedes), em relação a 2017. No ano passado nós não os ultrapassamos, apesar de estarmos com menor carga aerodinâmica. Foi bom ver o nosso progresso.

Vettel foi bastante modesto, escondeu o jogo. Não é preciso entender muito de corridas para “ver” os cavalos a mais da unidade motriz Ferrari. Essa potência extra não explica a superioridade do modelo SF71H italiano. O conjunto é muito eficiente. De novo é conclusivo: na média, mais de o W09 da Mercedes.

Vettel ultrapassou Hamilton na grande reta em seguida a largada sem usar o DRS (flap móvel, ou como gostam alguns, asa móvel). Assumiu a liderança por ter maior velocidade, ajudado, sim, pelo vácuo do carro de Hamilton. Mas depois de o safety car sair da pista, no fim da quinta volta, acionado por causa do múltiplo acidente da largada, Vettel abriu para Hamilton apenas naquela volta 2s255. No fim da volta seguinte, sexta, 2s580. Da sétima, 2s768. Os dois tinham pneus supermacios novos desde a largada. A Pirelli levou para a Bélgica também os macios e os médios.

Quando essa diferença chegou em 3s980, na 14ª volta, Vettel passou a administrá-la em vez de seguir abrindo para Hamilton. É por isso que quem viu tudo isso acontecer entendeu a estratégia de poupar o equipamento e não expor para a Mercedes o real potencial do carro da Ferrari equipado com a versão 3 da unidade motriz.

Hamilton fez o pit stop único da corrida na 21ª volta, uma antes da metade da prova, e saiu com os pneus macios. Vettel também trocou os supermacios pelos macios novos na volta seguinte. Na primeira volta dos dois na pista com os novos pneus, a 23ª, Vettel tinha uma vantagem de 1s932. Cinco voltas mais tarde, na 28ª, já estava a 4s407 de Hamilton.

O piloto inglês, resignado, viu não ser possível se aproximar para tentar vencer o GP da Bélgica. Explicou:

– Vi não ter o seu ritmo, não poder fazer nada. Mudei a programação do motor a fim de preservá-lo, pois minha segunda colocação não estava ameaçada. Eles têm, como falei, uma grande vantagem de potência. Deu para ver bem, eram mais rápidos da curva 1 até a Eau Rouge e seguiam assim na reta. Não sabemos como eles fazem isso.

O GloboEsporte.com esteve também na entrevista do sócio e diretor da equipe Mercedes, o austríaco Toto Wolff. Não tinha a expressão de felicidade de outros eventos. Bem pelo contrário, é bem provável ter entendido o imenso desafio a ser enfrentado até o fim da temporada, diante de a Ferrari dispor de um carro mais rápido. Até agora, também confiável.

Vale a explicação: Mercedes e Ferrari homologaram na FIA a terceira e última versão da sua unidade motriz. A primeira foi usada pela Ferrari nas sete primeiras etapas. Pela Mercedes, nas oito. A versão 2 dos italianos esteve no carro de Vettel e Raikkonen somente por cinco GPs, do GP do Canadá, sétimo, ao da Hungria, 12º. E voltará às pistas em traçados de menor velocidade média, como o de Sochi, na Rússia.

Já a versão 2 da Mercedes esteve no W09 de Hamilton e Bottas do GP da França, oitavo, ao da Hungria, e, da mesma forma, será utilizada novamente. O regulamento impõe o limite de três unidades motrizes por piloto para as 21 provas do calendário, média de sete GPs por unidade. A versão 3 de Ferrari e Mercedes deverá estar, no entanto, na maioria dos GPs daqui pela frente.

Como Ferrari e Mercedes homologaram a versão 3 de suas unidades, elas não podem mais ser alteradas, pois caracterizaria troca de unidade e, consequentemente, punição no grid a seus pilotos. Em uma temporada tão disputada como a em curso, largar lá atrás poderia ser fatal.

Neste domingo, Bottas largou em 17º por causa de usar já a quarta unidade motriz completa, uma acima do limite, e mesmo em um traçado onde as ultrapassagens são possíveis, como o de Spa, recebeu a bandeirada em quarto, a impressionantes 63s605 de Vettel. Se um safety car é inviável chegar nos primeiros, ou seja, marcar elevado número de pontos, essencial nessa fase decisiva do campeonato.

Como a Mercedes pensa em reduzir a vantagem de potência da Ferrari se o regulamento permite às versões homologadas de unidade motriz mudanças apenas nos programas de gerenciamento? Elas são seladas. Não é possível alterar nenhum elemento do conjunto mecânico. Depois de reconhecer não ter atingido o objetivo de reduzir a diferença de potência para a Ferrari, neste fim de semana, Wolff .

– Ainda acho possível. Temos de trabalhar nos programas de gerenciamento (software), especificações de gasolina, óleo lubrificante, sem mexer no hardware (conjunto mecânico).

Mas Wolff reconheceu a séria limitação agora existente. A Mercedes dispõe de poucos meios para tirar mais cavalos da sua unidade motriz, como fez a Ferrari na versão usada pela primeira vez em Montreal e, agora em Spa. A Mercedes evoluiu menos com a versão deste fim de semana.

O resultado do GP da Bélgica fez Vettel se aproximar de Hamilton. A diferença entre ambos caiu de 24 para 17 pontos. E a corrida de domingo, em Monza, representa uma importante oportunidade para Vettel diminuí-la ainda mais.

Entre os construtores, outra competição bastante valorizada, o abandono de Kimi Raikkonen, decorrente dos danos sofridos pela sua Ferrari SF71H na largada, atingida pela RBR14 de Daniel Ricciardo, por sua vez vítima também da inconsequência de Nico Hulkenberg, da Renault, fez a Ferrari somar menos pontos da adversária. Está, agora, 345 a 335 para os alemães.

A vitória de Vettel, da forma como foi obtida, sem dar chance a Hamilton, além da mensagem de superioridade italiana tem outro significado igualmente muito importante. A Ferrari não estava longe de uma crise. A imprensa italiana já está cobrando Vettel e mesmo a direção do time por dispor de uma equipamento mais eficiente ao da Mercedes e não liderar nenhum dos dois campeonatos. A vitória acalma os ânimos e cria perspectivas positivas para o restante da temporada.

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