A exportação de carnes congeladas pelo Porto de Paranaguá registrou um aumento de 14% no ano de 2015. Ao todo, foram movimentadas 1,91 milhão de toneladas ao longo dos doze meses do ano, enquanto em 2014 tinham sido exportadas 1,67 milhão de toneladas dos produtos.
Paranaguá, 12/02/2016.
Foto: Divulgação APPA

Longe das esperanças de certos setores brasileiros, as primeiras projeções da ONU alertam que o País perderia com a guerra comercial por pelo menos cinco anos. A taxa de crescimento do PIB, exportações, investimentos e até salários sofreriam e, no cenário global, ninguém sairia como vencedor. Nem mesmo o governo americano de Donald Trump.

As conclusões fazem parte do relatório anual da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento. Em cinco anos, a perda acumulada por conta da guerra comercial para o crescimento do PIB brasileiro será de 1,1 pontos percentuais. Já as exportações crescerão em cinco anos 4,9 pontos percentuais a menos por conta da tensão. As perdas para o crescimento mundial seriam de 2,7%.

No que se refere aos investimentos privados no mundo, a perda seria de 5%, contra uma queda de 2,5% no consumo. O fluxo do comércio, que numa situação normal teria uma expansão de 3,8% em 2023, seria reduzido para 3,2% de aumento em cinco anos. No total acumulado, a perda seria de 4,6%.

“Uma guerra comercial minaria o crescimento, a distribuição de renda e emprego em todos os países, ainda que aqueles mais envolvidos com a elevação de tarifas sejam os mais afetados”, destacou a gania da ONU.

Ainda que as tarifas afetem setores específicos, o que a agência da ONU alerta é para o impacto desse movimento na demanda agregada, o que amplificaria os problemas. “Para todos os países, qualquer enfraquecimento da demanda agregada nos países ricos, levadas por uma batalha de tarifas, combinado com compressão de salários, austeridade fiscal e factores relacionados com a falta de investimentos, poderia levar a outra crise global ou, pelo menos, a uma forte deterioração das condições macroeconômicas, com governos e anos centrais tendo menos espaço para intervir que em crises anteriores”, alertou.

O Brasil, porém, se encaixaria entre os cinco países considerados como vulneráveis, ao lado de Turquia, Indonésia, África do Sul e Argentina.

Em cinco anos, a perda acumulada do PIB desses cinco emergentes seria de 1,5%. Em 2023, no lugar de apresentar uma taxa de expansão de 3,2%, o crescimento seria de 2,9%.Os investimentos sofreriam, com uma perda de 2,1% até 2023. O consumo privado deixaria de crescer em 1%, enquanto os salários sofreriam uma perda de 0,3%.

A expansão das exportações também seria afetada. No lugar de uma expansão de 4,8% em 2023, o grupo veria um aumento de 4,2%. No acumulado, a perda seria de 4,1%.

O Brasil sofreria e, mesmo em 2023, continuaria a ver seu PIB afetado negativamente em 0,2 pontos percentuais por conta da guerra comercial. As exportações, ao final de cinco anos, também seriam afetadas e a expansão seria reduzida em 0,22 pontos percentuais.

O impacto no Brasil ocorreria por conta da sua vulnerabilidade diante do mercado externo e dos riscos de uma forte flutuação cambial. Nos últimos dez anos, a Unctad estima que o Brasil não registrou uma recuperação comercial diante de limitações estruturais.

Na China, maior visada pelas barreiras, estaria entre as mais afetadas. A proliferação de barreiras geraria uma perda acumulada do PIB até 2023 de 3,9%, contra uma queda de 2,4% na taxa de exportação.

Mas a agência da ONU estima que Pequim teria capacidade de recuperar parte das perdas. “A China conseguiria reconquistar a maior parte de sua posição externa depois de quatro anos, resultado de um ajuste em sua moeda e a manutenção de sua estrutura comercial com outros parceiros fora da guerra comercial”, avaliou. De acordo com o estudo, os dados chineses mostram que sempre que o país sofre uma queda nas vendas a um determinado parceiro, ela responde com ajustes.

Mas mesmo os americanos seriam, no longo prazo, afetados pela guerra comercial. Nos EUA, a perda acumulada do PIB seria de 2,5% em cinco anos, além de 4,8% das exportações até 2023.

Em 2019, o governo Trump poderia ter uma receita de US$ 280 bilhões com a imposição de tarifas e transferir às empresas americanas US$ 181 bilhões pelas tarifas pagas no Canadá, China, Japão, Coreia e Europa. “O governo americano ganharia US$ 99 bilhões em receita que poderia usar para reduzir seu déficit e dívida”, aponta.

Uma queda no déficit de conta corrente, portanto, poderia ser gerado nos EUA, enquanto China e outros teriam uma redução de seu superávit. Mas haveria uma desaceleração das exportações americanas como responsa às mudanças na demanda global. Haveria, portanto, um “choque para distribuição, consumo e investimentos no nível global”, constatou.

Assim, no lugar de crescer em 2,2% em 2023, o PIB americano teria uma expansão de 1,8%. Investimentos globais ainda cairiam em 1% por ano até 2023.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2018 | 14h00

GENEBRA – Diante de um cenário de incertezas domésticas e internacional, o Brasil pode ser afetado pela falta de confiança na moeda brasileira. O alerta é da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento, Unctad. Em seu informe anual publicado nesta quarta-feira, 26, a entidade alerta que a depreciação do real pode levar a falências e uma crise cambial. A organização também constata que, hoje, o Brasil não tem uma estratégia industrial e, assim como o restante da região, vem perdendo espaço no cenário internacional.

Para 2018, a projeção da entidade da ONU é de que o Brasil terá um crescimento de apenas 1,4%, o mais baixo entre todos os BRICs e metade da taxa média do mundo, de 3,1%. Nesse mesmo período, a China crescerá 6,7%, contra 7% na Índia e 1,7% na Rússia. Entre os emergentes, a média será de uma expansão de 4,6%.

O levantamento também revela que, entre as maiores economias do mundo, o Brasil foi quem mostrou o pior desempenho entre 2011 e 2017, com uma expansão de apenas 0,5% por ano. Na China, a expansão foi em média de 7,6%, contra uma média mundial de 2,1% por ano, quatro vezes a taxa brasileira.

O crescimento médio brasileiro ficou abaixo inclusive das taxas europeias, mesmo diante da pior crise econômica no continente e uma ameaça de colapso da zona do euro.

De acordo com a Unctad, a recuperação dos preços de commodities permitiu que as economias latino-americanas registrassem uma leve alta em 2015, depois de dois anos de desaceleração. A recuperação do continente deve continuar em 2018, com uma expansão de 1,7%, depois de uma taxa de 1,1% em 2017.

No caso do Brasil, a projeção é também de expansão, depois de um crescimento de apenas 1% em 2017 e uma contração de 7% nos dois anos anteriores.

Mas essa recuperação já deu “sinais de desaceleração”, em parte precipitada pela greve dos caminhoneiros no segundo trimestre. Na avaliação da Unctad, isso criou “incertezas sobre o ritmo da recuperação para o restante do ano”.

Mas é a volatilidade da moeda que deixa os técnicos em estado de alerta. “Até recentemente, o Brasil abriu atenção por conta da fraqueza de sua moeda”, escreveu. “O real depreciou significativamente nos primeiros seis meses de 2018. O ritmo da depreciação só foi moderado pela emissão de swaps pelo Baco Central”, explicou.

A queda da volatilidade levou o BC a reduzir suas emissões de US$ 100 bilhões para menos de US$ 25 bilhões. O governo ainda trouxe a Selic de 14,25% em 2016 para 6,5% em março de 2018.

Segundo a Unctad, porém, o real não segurou e “até mesmo passou a ser alvo de um ataque especulativo”. “A queda da moeda só parou quando o presidente do BC declarou que iria intensificar o uso de swaps”, lembrou a entidade.

“Uma profunda depreciação do real pode gerar uma crise da moeda e desestabilizar os mercados financeiros com efeitos externos negativos na economia real”, alertou a Unctad. Quem mais sofreria seriam as empresas com dívidas denominadas em moedas estrangeiras, com falências e queda nos preços de apões que iriam frear investimentos.

“Se o BC decide aumentar as taxas de juros de forma repentina para evitar a saída de investidores estrangeiros e fuga de capital, o clima de investimentos pode piorar ainda mais”, indicou. Na avaliação da entidade, a dívida externa em patamares não tão elevados e reservas externas significativa de US$ 380 bilhões “dão ao Brasil alguma munição para enfrentar uma possível turbulência externa na segunda metade do ano”.

Ainda assim, a entidade alerta que, diante das incertezas, o Brasil “seguiria o destino da falta de confiança no real e uma pressão cada vez maior para economia”. “A depreciação é resultado de temores que emergentes enfrentam em diferentes setores da economia”, avalia.

Sem estratégia – Para a Unctad, os números e a vulnerabilidade da economia brasileira mostram que o País não tem uma estratégia de desenvolvimento industrial, o mesmo problema que enfrenta o restante da região. Sem isso, avalia a entidade, governos apenas conseguem fazer promessas de curto prazo e continuam perdendo espaço no mercado global e no desenvolvimento de novas tecnologias.

Outra constatação da Unctad é o baixo investimento existente no País em infra-estrutura. Na avaliação da entidade, o mundo precisaria de um aporte de US$ 4,6 trilhões a US$ 7,9 trilhões em novas estruturas a cada ano. Nos países emergentes, a conta chega a US$ 2,5 trilhões por ano até 2030. Hoje, esses investimentos não passam de US$ 870 bilhões.

Na América Latina, esses investimentos teriam de chegar a 6,2% do PIB para que a população e a economia fossem atendidas. Em 2015, ela era de apenas 3,2%. Naquele ano, porém, o Brasil destinou menos de 2% de seu PIB para infra-estrutura, uma das taxas mais baixas entre os países em desenvolvimento. Os dados se contrastam com os 6,8% do PIB que a China destina para essas obras.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2018 | 14h11

GENEBRA – A guerra tarifária que eclodiu entre EUA e China é um sintoma de uma crise mais profunda da economia mundial e do fracasso do sistema comercial em distribuir lucros. O alerta é da Unctad que, nesta quarta-feira, 26, publica seu informe anual e aponta que, dez anos depois do pior momento do capitalismo sete décadas, os desequilíbrios globais continuam mais fortes do que nunca. Os países emergentes, porém, devem ser os mais afetados diante da tensão entre Washington e Pequim.

Colocando por terra a versão vendida pelos promotores da abertura de fronteiras e derrubando um mantra defendido pela OMC, a agência da ONU aponta que o sistema comercial dos últimos 20 anos aumentou as desigualdades e fracassou em gerar desenvolvimento aos países mais pobres. Os ganhos do comércio ficaram com apenas um punhado de grandes empresas, com lucros maiores e salários cada vez mais deprimidos.

Agora, segundo eles, o combate de Donald Trump e dos projetos de reforma da OMC é para que o sucesso do modelo chinês não seja replicado pelo mundo em desenvolvimento.

Para mostrar que o atual sistema não funcionou para distribuir renda, a agência revela que apenas 1% das empresas que comercializam no mundo são responsáveis por seis de cada dez dólares movimentados pelas exportações. Em alguns países, apenas dez empresas movimentam 40% das exportações. Enquanto isso, pequenos exportadores não conseguem sobreviver. 75% deles desistem do mercado internacional em apenas dois anos.

O Brasil é um dos exemplos desse fracasso. De acordo com o informe, a produção manufatureira no País entre 2000 e 2014 transferiu renda para o exterior e viu o valor adicionado doméstico cair em 2 pontos percentuais nesse período.

De acordo com o levantamento, apenas dez empresas no Brasil são responsáveis por 28% das exportações nacionais. Os benefícios de uma maior exportação, porém, ficaram com trabalhadores com maiores graus de responsabilidade e nas sedes das empresas. Os investimentos diretos no Brasil, portanto, não trouxeram uma distribuição de renda aos trabalhadores do chão das fábricas, que viram sua participação nas exportações caírem.  “O Brasil precisa proteger salários e renda”, diz a Unctad, que acredita que esse seria o caminho para gerar uma economia menos vulnerável.

Na avaliação da entidade, existe uma desaceleração estrutural da economia mundial e isso não conseguiu ser superado, uma década depois da quebra do Lehman Brothers. “A economia mundial está sob pressão”, disse Mukhisa Kituyi, o secretário-geral da Unctad. Segundo ele, atrás da escalada tarifária que ameaçam a estabilidade global, o mundo precisa reconhecer “um fracasso mais amplo de lidar com as desigualdades e desequilíbrios”.

“A globalização não beneficiou a todos e as cadeias produtivas não distribuíram renda”, disse  o autor do informe, Richard Kozul-Wright. “Temos uma economia mundial muito frágil, as políticas fracassaram, salvamos bancos. Mas reforçamos o poder na mãos de poucos, enquanto os salários foram minados. As desigualdades não foram lidadas, enquanto os lucros atingiram níveis inéditos”, apontou.

O resultado, segundo ele, foi uma descrença em políticos tradicionais e a busca por soluções em grupos populistas, xenófobos e neofascistas. “Hoje, a desigualdade é maior, os bancos são maiores e as dívidas são maiores. Não por acaso, a ansiedade é maior e está se traduzindo na política em escolhas como Donald Trump”, disse.

Para a entidade, o G20 fracassou em lidar com os desequilíbrios, enquanto os governos e concentraram em aplicar medidas de austeridade. “O resultado é que temos economias mais frágeis e populações ainda mais frágeis”, disse.

Segundo a entidade, os últimos dez anos foram marcados por uma concentração ainda maior do poder nas mãos de apenas algumas grandes empresas, limitando a habilidade de países em desenvolvimento de também tirar proveito do sistema comercial ou das novas tecnologias.

O levantamento também mostra como, desde 2008, governos abriram mão de recursos domésticos de crescimento para depender do mercado internacional. O resultado é uma vulnerabilidade cada vez mais intensa. Hoje, o estoque da dívida global hoje é de US$ 250 trilhões, 50% superior aos níveis registrados no auge da crise, em 2008. Ela ainda é três vezes superior à economia mundial.

A dívida pública, sem estímulos para os investimentos, estaria criando uma nova bolha que ameaça uma vez mais a economia.

Guerra comercial deve afetar economias mais frágeis

Nesse contexto, o clima de guerra comercial é apenas um sintoma de um “sistema económico e de uma arquitetura multilateral degradada”, aponta Richard Kozul-Wright.

Mas, uma vez mais, serão os países mais vulneráveis os que mais sofrerão diante de um impacto nas cadeias produtivas, da incerteza e da queda dos investimentos.  Para as economias com sérios problemas financeiros, portanto, a nova crise pode ser particularmente negativa.

“Para a América Latina, a incerteza é o maior impacto e não há fundamentação para pensar que a região vai ganhar em obter parte do mercado diante da guerra entre americanos e chineses”, disse o economista da Unctad, Alex Izurieta. Segundo ele, exportadores de ambos os lados vão ser compensados, inclusive com mais subsídios. “A América Latina não deveria ter esperanças de ficar com uma parcela desse mercado”, alertou.

Apesar dos ataques ao sistema, a Unctad acredita que o avanço do populismo e do protecionismo seria “trágico” para a economia global.  Ainda assim, ela explicita a necessidade de que governos repensem o comércio para garantir que haja uma renda mais justa a partir das exportações. A “hiperglobalização” a partir dos anos 90 não gerou resultados positivos para todos. “Mas nem um retrocesso a um nacionalismo nostálgico e nem uma abertura total de mercados poderiam dar uma resposta”, aponta.

“O livre comércio mostrou ser um instrumento ideológico que limitou o espaço para políticas públicas para países em desenvolvimento e cortou proteções a trabalhadores e pequenas empresas, em favor de grandes empresas”, disse a Unctad.

Se nos anos 90 as cadeias produtivas ganharam espaço e permitiram um crescimento rápido aos emergentes, a constatação hoje é de que elas tem deixado pouco valor adicionado aos países. A concentração da renda continua cada vez mais centrada no local onde se controla a cadeia produtiva, aprofundando a disparidade de renda nos países.

Na avaliação de Richard Kozul-Wright, o termo “acordo de livre comércio” é hoje uma “falácia”. “Ele não é livre, pois o objetivo é o de atar as mãos de pequenos empresários, trabalhadores e governos. Ele não sobre comércio, pois trata acima de tudo do movimento de capital. E, finalmente, eles não são acordos, já que são frutas de intenso lobby e pressão política, além de uma falta total de transparência e democracia”, diz.

Agência da ONU defende modelo chinês de desenvolvimento

Para a agência da ONU, o debate hoje contra as distorções criadas pela China no comércio é “desonesto”. Pelas propostas de reforma da OMC, novas regras seriam criadas para impedir que o setor industrial fosse subsidiado, para acabar com a diferenciação entre emergentes e países ricos e para controlar empresas estatais.

Sua avaliação é de que a reforma que se propõe hoje na OMC é “chocante”, já que visa acima de tudo impedir que o modelo de desenvolvimento chinês seja replicado em outros lugares do mundo. “Essa é uma forma perversa de reformar o sistema e matar a única história de sucesso entre os emergentes”, atacou. “Esse foi um modelo para eliminar a pobreza. Mas a luta é agora para que isso não se repita”, disse.

Os dados da Unctad revelam que, de fato, a China foi a única que se destacou em 20 anos. Sem a China, os Brics viram sua produção aumentar de 3,7% do total mundial em 1990 para 7,4% em 2016. Com Pequim no cálculo, a fatia sobe para 22,2%. Hoje, de cada US$ 10 exportados por emergentes, US$ 7 vem do Sudeste Asiático.

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