Tenha ou não ajudado o presidente Jair Bolsonaro a chegar ao Planalto no ano passado, o atentado à faca que ele sofreu há um ano em Juiz de Fora (MG), durante um ato de campanha, se transformou em um dos acontecimentos ao qual ele, a família e os correligionários se referem com mais frequência e profundidade. Ao conceder entrevistas, participar de programas de televisão e receber benção em eventos religiosos, Bolsonaro não titubeia antes de se referir à data em que foi ferido por Adélio Bispo de Oliveira, considerado inimputável pela Justiça após ser diagnosticado com um transtorno mental.

Além do risco à vida do então candidato, o episódio criou complicações para a saúde de Bolsonaro — até janeiro, foi necessário usar uma bolsa de colostomia e ainda há uma q uarta cirurgia marcada pra domingo — e entrou para o vocabulário da retórica bolsonarista como exemplo da capacidade de superação de seu líder. A facada também levou o entorno do presidente a reforçar cada vez mais a segurança dele (não é raro vê-lo vestindo um colete à prova de balas ao participar de agendas públicas) e a orientá-lo dos cuidados que precisa tomar para que a recuperação continue progredindo. Em julho, por exemplo, médicos indicaram a necessidade de postergar um salto de paraquedas que Bolsonaro havia planejado.

Os encontros de Bolsonaro com a base eleitoral evangélica, na tentativa de manter a proximidade, são marcados por menções à facada. Em julho, por exemplo, ele ouviu de um bispo em Brasília, durante um culto, que a própria trajetória “foi um milagre de Deus” e que o divino o “guardou no momento da facada”. Em junho, ao visitar o Vale do Ribeira, região do estado de São Paulo em que nasceu, o presidente se emocionou quando soube que freiras tinham rezado pela recuperação dele. Ainda naquele mês, na Marcha para Jesus da capital paulista, afirmou que ganhou o dom de viver pela segunda vez e, ao agradecer eleitores, disse que “Deus nos deu a presidência”.

Atrelada à suposição de que a sobrevivência à facada foi um sinal divino, a utilização dela como uma espécie de argumento de autoridade que justifique ações controversas é movimento frequente entre apoiadores. O senador Nelsinho Trad (PSD-MS) defendeu recentemente que o episódio garante a Bolsonaro o direito de escolher o próprio filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, para a embaixada brasileira nos Estados Unidos. “Quem levou a facada foi ele, quem ganhou a eleição foi ele. Ele tem todo o direito de escolher quem é melhor”, afirmou Trad. Quando o ex-presidente Lula disse que havia “alguma coisa estranha na facada”, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) General Heleno não se conteve ao dizer para jornalistas, entre socos na mesa, que o petista agia com “canalhice” e que deveria ser condenado “à prisão perpétua”.

Ferida aberta

Um dos grandes motivos para que facada de Bolsonaro seguisse em pauta foi o encerramento das investigações pela Polícia Federal (PF), dez meses após o ocorrido, sem que houvesse o indiciamento de um mandante. O próprio presidente costuma refutar a tese de que Adélio Bispo agiu sozinho. Com o objetivo de descobrir quem supostamente apoiava o homem que o esfaqueou, Bolsonaro chegou a se prontificar a encontrá-lo pessoalmente.

“Ele tem a chance de falar agora. Eu estou me dispondo a ele, se ele quiser conversar comigo, abrir o jogo, eu vou conversar com ele, com familiar dele”, disse em julho.

Bolsonaro, os filhos e grande parte dos políticos que o clã ajudou a eleger sustentam até hoje o discurso de que há um interessado maior na morte do presidente. Uma parcela das críticas dele à PF está assumidamente relacionada à questão vista como mal solucionada. Os investigadores, no entato, sempre disseram que Adélio era um lobo solitário. A antiga filiação do autor ao Partido Social Liberal (PSOL), de oposição ao governo, alimenta ainda mais a narrativa com ares de teoria da conspiração.

Trauma revivido frequentemente na oratória, a facada de Bolsonaro deixou uma cicatriz desenhada em quase toda extensão do abdômen dele. A marca já foi exibida sem qualquer pudor mais de duas vezes na TV, uma delas num humorístico. “Alguns falam que foi fake”, brincou o presidente ao levantar a camisa. Na fala mais recente sobre o tema, num canal do Youtube, ele resumiu o incômodo que sente quando se refere ao ataque: “Há muito tempo espero que a PF chegue no final da linha. Entre o meu caso e o da Marielle Franco, que a imprensa tanto reverbera, o meu é muito mais fácil ou menos difícil de se desvendar”, disse Bolsonaro.